Mulher idosa sentada num sofá com as mãos sobre o joelho, sugerindo dor articular associada a artrose do joelho.

Artrose do joelho — tem de ser sempre prótese?

August 18, 2026•6 min read

Entre o diagnóstico e a cirurgia existe um caminho com muitas opções

"O médico disse que tenho artrose e que vou precisar de uma prótese."

Esta frase gera ansiedade — e, muitas vezes, não conta a história toda. A artrose do joelho é uma realidade para milhões de pessoas, especialmente acima dos 50 anos, mas o percurso entre o diagnóstico e uma eventual prótese raramente é direto. Há um conjunto significativo de opções entre os dois extremos.


O que é a artrose do joelho?

A gonartrose é a degeneração progressiva da cartilagem articular do joelho — o tecido que reveste as superfícies ósseas e permite o movimento suave e sem dor. Com o desgaste, a cartilagem vai perdendo espessura e elasticidade. Em casos avançados, os ossos entram em contacto direto, provocando dor, rigidez e inflamação crónica.

A artrose é classificada radiograficamente pela escala de Kellgren-Lawrence (KL), em graus de 0 a 4:

  • KL 0 — normal.

  • KL 1 — possível estreitamento do espaço articular, osteófitos mínimos.

  • KL 2 — osteófitos definidos, possível estreitamento: artrose ligeira.

  • KL 3 — estreitamento moderado, esclerose subcondral, possíveis deformidades: artrose moderada.

  • KL 4 — marcado estreitamento, esclerose severa, contacto osso-osso: artrose grave.


📌

Esta classificação é útil, mas não é o único fator que determina o tratamento. A correlação entre o grau radiográfico e os sintomas é imperfeita — alguns doentes com artrose grave têm poucos sintomas; outros com grau moderado têm dor significativa. O tratamento é sempre individualizado.


Quais são os fatores de risco?

A artrose do joelho resulta da interação de múltiplos fatores:

Idade — o risco aumenta progressivamente a partir dos 45–50 anos.

Sexo feminino — maior prevalência, especialmente após a menopausa.

Excesso de peso — cada quilograma extra adiciona cerca de 4 kg de carga ao joelho durante a marcha.

Lesões articulares prévias — meniscectomia, rotura do LCA e fraturas intrarticulares aumentam significativamente o risco.

Alinhamento do membro — joelho varo (pernas em "O") concentra carga no compartimento medial; joelho valgo (pernas em "X") sobrecarrega o lateral.

Genética e fatores constitucionais.

O tratamento conservador: o primeiro passo

As diretrizes internacionais (OARSI, EULAR, NICE) são claras: o tratamento conservador deve ser o ponto de partida para a grande maioria dos doentes com artrose do joelho, exceto nos casos mais avançados com indicação cirúrgica direta.

Modificação do estilo de vida

Perda de peso é uma das intervenções com maior evidência. Em doentes com excesso de peso, cada 10% de redução do peso corporal está associada a uma melhoria significativa da dor e da função. O efeito é mecânico (menos carga) e também metabólico (redução da inflamação sistémica).

Exercício físico — ao contrário do que muitos doentes pensam — não agrava a artrose. Muito pelo contrário: o exercício regular, aeróbico e de fortalecimento muscular, é uma das intervenções mais eficazes para reduzir a dor e melhorar a funcionalidade. A fisioterapia é essencial para estruturar e supervisionar este processo.

Medicação

Os anti-inflamatórios não esteroides (AINEs) são frequentemente utilizados para controlo da dor em fases mais sintomáticas, mas devem ser usados com critério, pelo perfil de efeitos secundários em uso prolongado (gastrointestinal, cardiovascular, renal). O paracetamol é uma alternativa mais segura para uso crónico, mas com eficácia analgésica inferior.


Infiltrações: que opções existem?

Quando o tratamento oral não é suficiente, as infiltrações intra-articulares são uma opção válida. Há três tipos principais, com mecanismos e indicações distintos.


Corticoides (esteroides)

Os corticosteroides intra-articulares têm um efeito anti-inflamatório potente e rápido. São particularmente úteis em fases de agudização com inflamação e derrame sinovial marcados. O efeito dura tipicamente 4 a 8 semanas.

⚠️
O uso repetido e frequente pode ser lesivo para a cartilagem articular, pelo que o número de infiltrações por ano deve ser limitado — geralmente não mais de 3 a 4 por articulação.


Ácido hialurónico

O ácido hialurónico é um componente natural do líquido sinovial, responsável pelas suas propriedades lubrificantes e viscoelásticas. Na artrose, a sua concentração e qualidade diminuem.

As injeções de ácido hialurónico procuram repor estas propriedades. O efeito é mais gradual do que os corticoides, mas potencialmente mais duradouro (3 a 6 meses). A evidência científica é heterogénea — alguns ensaios mostram benefício significativo, outros resultados modestos — e a resposta individual é variável.


PRP — Plasma Rico em Plaquetas

O PRP é um concentrado de plaquetas obtido a partir do próprio sangue do doente, após centrifugação. As plaquetas libertam fatores de crescimento (TGF-β, VEGF, PDGF, IGF-1) com propriedades anti-inflamatórias e regenerativas.

A evidência científica acumulada nos últimos anos é promissora: vários ensaios clínicos e meta-análises sugerem que o PRP é superior ao ácido hialurónico e ao placebo na redução da dor e melhoria da função em artrose ligeira a moderada, com um perfil de segurança excelente (é derivado do próprio doente). No entanto, a heterogeneidade nas preparações e protocolos limita a generalização dos resultados.

A osteotomia: uma alternativa à prótese em casos selecionados

A osteotomia corretiva é uma cirurgia que altera o eixo do membro inferior para redistribuir a carga articular. É uma opção poderosa e subvalorizada em doentes jovens e ativos com artrose assimétrica.

Como funciona

Em artrose predominantemente medial (o padrão mais comum), o eixo do membro está frequentemente desviado em varo — as forças concentram-se no compartimento interno já danificado. A osteotomia do joelho (tibial ou femoral, dependendo da anatomia do doente) corrige este eixo, transferindo a carga para o compartimento mais saudável.

Para quem é indicada

  • Doentes com menos de 60–65 anos, ativos;

  • Artrose predominantemente unicompartimental;

  • Ligamentos estáveis e amplitude de movimento preservada;

  • Motivação para a reabilitação pós-cirúrgica.

Os resultados são favoráveis: estudos a 10 anos mostram alívio significativo da dor em 70 a 80% dos doentes. A osteotomia não "cura" a artrose, mas pode adiá-la — e esse tempo faz toda a diferença para um doente de 45 ou 50 anos.



Quando é que a prótese é a resposta certa?

A artroplastia do joelho — total ou parcial — é um dos procedimentos com maior impacto positivo na qualidade de vida em ortopedia. Os resultados a longo prazo são excelentes: mais de 90% dos doentes mantêm a prótese funcional aos 15 anos.

Mas tem indicações bem definidas:

  • Artrose grave (KL 3–4) com dor significativa e limitação funcional;

  • Falha do tratamento conservador otimizado;

  • Artrose que envolve mais do que um compartimento (ou artroplastia unicompartimental para artrose unicompartimental isolada);

  • Expectativa de atividade pós-operatória compatível com a sobrevivência do implante.

💡

A idade não é por si só um critério — importa mais a biologia do doente, o grau de artrose e o nível de atividade esperado.


Em resumo

A artrose do joelho não é uma sentença cirúrgica automática. Existe um espectro terapêutico com múltiplas intervenções eficazes — e a progressão para a prótese é frequentemente evitável ou adiável por muitos anos com o tratamento adequado.

A chave é uma avaliação individualizada: o grau de artrose, o compartimento afetado, a idade, o nível de atividade e os objetivos funcionais determinam o caminho mais adequado para cada pessoa.

Em consulta, é possível esclarecer todas as dúvidas e conhecer as opções disponíveis. Se está a a passar por uma situação semelhante e necessita de mais informações sobre o seu caso, a Dra. Filipa está disponível para as esclarecer.
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Ref.: Kellgren JH, Lawrence JS, Ann Rheum Dis 1957; OARSI Guidelines 2019; Bannuru RR et al., Osteoarthritis Cartilage 2019; Meheux CJ et al., Arthroscopy 2016; Filardo G et al., Br Med Bull 2011; Lobenhoffer P, Staubli AE, Orthopade 2003; Registry Data: Swedish Knee Arthroplasty Register 2022.

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Dra. Filipa Gonçalves Pereira

Ortopedista dedicada à cirurgia do joelho e traumatologia desportiva, com foco na preservação articular. Tem dor no joelho ou uma lesão desportiva. Não adie uma avaliação.

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