
Cirurgia robótica do joelho — o que muda para o paciente
Uma ferramenta que não substitui o cirurgião: aumenta a sua precisão
A palavra "robótica" evoca frequentemente imagens de máquinas autónomas que operam sozinhas. Na cirurgia ortopédica, a realidade é diferente — e mais interessante.
A cirurgia assistida por robótica não substitui o cirurgião. Aumenta a sua precisão. É uma ferramenta sofisticada que trabalha em colaboração com o ortopedista, integrando planeamento tridimensional, dados do doente em tempo real e controlo háptico para alcançar resultados que a cirurgia convencional dificilmente replica com a mesma consistência.
O que é, afinal, a cirurgia robótica em ortopedia?
Existem vários sistemas de assistência robótica em ortopedia, com diferentes graus de autonomia:
Sistemas passivos (navegação) — fornecem feedback em tempo real sobre o posicionamento dos implantes, mas não intervêm ativamente nos cortes.
Sistemas semi-ativos (hápticos) — o cirurgião controla o instrumento, mas o sistema impõe limites: o braço robótico resiste fisicamente se o cirurgião se desviar do plano planeado.
Sistemas ativos — realizam os cortes de forma autónoma, dentro de limites definidos pelo cirurgião.
Os sistemas mais amplamente utilizados em Portugal e internacionalmente na artroplastia do joelho são os semi-ativos, com braço robótico háptico.
Como funciona a cirurgia robótica?
O processo começa antes da cirurgia.
1. Tomografia computorizada pré-operatória
É realizada uma TC do joelho (e frequentemente da anca e tornozelo) para obter um modelo tridimensional personalizado da anatomia do doente. Este modelo é importado para o sistema.
2. Planeamento virtual
O cirurgião planeia digitalmente a posição do implante — tamanho, orientação, ângulos de corte — com base na anatomia individual do doente. O objetivo é otimizar o alinhamento dos componentes e o equilíbrio dos tecidos moles.
3. Durante a cirurgia
O sistema regista a posição real do osso com sensores de rastreamento. Se a anatomia real diferir ligeiramente do modelo (o que acontece por variações de posicionamento), o plano é ajustado em tempo real. O braço robótico guia a fresagem óssea dentro dos limites definidos pelo plano — se o cirurgião se aproximar da margem de segurança, o sistema opõe resistência háptica.
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O resultado é uma execução dos cortes ósseos que replica o plano com uma precisão milimétrica consistente.
Prótese parcial ou total?
A cirurgia robótica é aplicada tanto na artroplastia unicompartimental (prótese parcial) como na artroplastia total do joelho.
Prótese unicompartimental (parcial)— substitui apenas o compartimento afetado: medial, lateral ou femoro-patelar. Indicada em artrose limitada a um compartimento, com preservação dos ligamentos e da cartilagem nos restantes. Tem menor invasividade, recuperação mais rápida e preserva o osso nativo. A assistência robótica é particularmente valorizada neste procedimento, pela exigência de precisão no posicionamento.
Prótese total — substitui toda a superfície articular do joelho. Indicada em artrose tricompartimental ou quando a prótese parcial não é adequada. O robô assiste no posicionamento dos componentes femoral e tibial e no balanço ligamentar.
O que muda, na prática, para o doente?
A principal consequência da maior precisão cirúrgica é a melhor sobrevivência do implante a longo prazo. Próteses mal posicionadas desgastam-se de forma irregular, provocam dor residual e podem exigir cirurgia de revisão. Estudos comparativos mostram que a cirurgia robótica reduz significativamente osoutliers— os casos em que o posicionamento se desvia do plano.
Evidência clínica
Um estudo de Kayani et al. (2018) demonstrou que a artroplastia unicompartimental robótica apresentou significativamente menos outliers de posicionamento do que a técnica convencional, com menor trauma dos tecidos moles e menor libertação de marcadores inflamatórios no pós-operatório.
Um estudo de Bhimani et al. (2020) mostrou menor duração do internamento e melhor função no pós-operatório imediato com cirurgia robótica vs. convencional.
Dados de registos a médio prazo (5–7 anos) mostram taxas de revisão inferiores nas próteses implantadas com assistência robótica, embora o seguimento a longo prazo ainda esteja a ser consolidado.
Para o doente, o impacto prático traduz-se em:
Posicionamento mais preciso do implante, adaptado à anatomia individual;
Menor traumatismo dos tecidos moles circundantes, pelos cortes mais controlados;
Recuperação potencialmente mais rápida nas fases imediatas pós-operatórias;
Maior probabilidade de alívio da dor residual a médio e longo prazo;
Menor risco de revisão cirúrgica por posicionamento inadequado.
A tecnologia que chegou a Portugal
Em Portugal, a cirurgia robótica para prótese do joelho ainda é relativamente recente. O CHU Santo António foi um dos primeiros centros a implementar esta tecnologia no país.
A equipa cirúrgica que realizou as primeiras próteses de joelho com assistência robótica em Portugal acumulou desde então uma experiência significativa com o sistema — o que tem implicações diretas nos resultados: a curva de aprendizagem da cirurgia robótica é real, e os melhores resultados são alcançados por equipas com experiência consolidada.
A cirurgia robótica substitui a avaliação clínica?
Não. E este ponto é fundamental.
A assistência robótica é uma ferramenta de execução — melhora a precisão dos cortes e o posicionamento do implante. Mas não substitui a avaliação clínica pré-operatória, a escolha do tipo de prótese, o planeamento individualizado nem a decisão de operar.
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Uma boa indicação cirúrgica, um planeamento cuidadoso e uma equipa com experiência continuam a ser os pilares fundamentais de um bom resultado — o robô amplifica a qualidade do plano, mas não corrige um plano deficiente.
Em resumo
A cirurgia robótica representa uma evolução relevante na artroplastia do joelho. Não é apenas marketing — é uma tecnologia com evidência crescente que melhora a precisão cirúrgica, reduz a variabilidade dos resultados e tem impacto real na experiência e nos resultados a longo prazo do doente.
Para quem vai ser operado à prótese do joelho, vale a pena perguntar sobre esta opção e compreender se se aplica ao seu caso. Para mais informações entre em contacto ou marque uma consulta.
Ref.: Kayani B et al., Bone Joint J 2018; Bhimani R et al., J Knee Surg 2020; Liow MHL et al., Bone Joint J 2014; Dretakis K et al., J Orthop Surg Res 2021; Haddad FS, Bone Joint J 2019 (editorial).


