
Preservar o menisco: porque é que importa
A diferença entre reparar e remover — e o que isso muda no futuro do seu joelho
Durante décadas, a resposta cirúrgica mais comum a uma lesão meniscal foi a remoção. Rápida, tecnicamente simples e com resultados imediatos satisfatórios — a meniscectomia parcial tornou-se o procedimento artroscópico mais realizado em todo o mundo.
Hoje, a evidência científica é clara: remover o menisco tem consequências a longo prazo que foram subestimadas durante anos. E isso mudou a forma como se aborda este tipo de lesão.
O que é o menisco e o que faz?
O joelho tem dois meniscos — o medial (interno) e o lateral (externo). São estruturas em forma de meia-lua, compostas por fibrocartilagem densa, e estão localizados entre o fémur e a tíbia.
As suas funções são múltiplas e essenciais:
Transmissão e distribuição de carga— os meniscos aumentam a área de contacto articular, distribuindo a carga de forma mais uniforme. O menisco medial transmite cerca de 50% da carga do compartimento interno; o lateral, cerca de 70% do compartimento externo.
Amortecimento de impacto— a estrutura viscoelástica do menisco absorve energia mecânica durante a marcha, corrida e salto.
Estabilidade articular— o menisco medial funciona como estabilizador secundário importante, especialmente em joelhos com insuficiência do LCA.
Lubrificação e nutrição— facilitam a distribuição do líquido sinovial pela cartilagem articular.
Proprioceção— contêm terminações nervosas que contribuem para o sentido de posição articular.
O que acontece quando o menisco é removido?
Após meniscectomia total, a pressão de contacto na cartilagem articular aumenta 2 a 3 vezes. Mesmo após meniscectomia parcial, este aumento é significativo e proporcional ao volume de tecido removido.
As consequências deste aumento de pressão são progressivas: a cartilagem articular, que não tem capacidade de regeneração significativa, degrada-se de forma acelerada. Vários estudos demonstraram que a meniscectomia é um fator de risco major para o desenvolvimento de gonartrose (artrose do joelho).
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Um estudo de seguimento a 16 anos mostrou que doentes submetidos a meniscectomia total tinham uma probabilidade 14 vezes superior de desenvolver artrose radiográfica comparativamente à população geral. Mesmo a meniscectomia parcial — durante anos considerada benigna — está associada a degeneração cartilaginosa acelerada a longo prazo.
Tipos de lesão meniscal
Nem todas as lesões meniscais são iguais. A caracterização do tipo, localização e padrão de rotura é determinante para a decisão terapêutica.
Quanto à vascularização
O menisco está dividido em três zonas:
Zona vermelha-vermelha(1/3 periférico) — bem vascularizada, com boa capacidade de cicatrização.
Zona vermelha-branca(1/3 médio) — vascularização intermédia.
Zona branca-branca(1/3 interno) — avascular, com capacidade de cicatrização muito limitada.
Esta classificação é fundamental: lesões na zona vermelha são candidatas à reparação. Lesões na zona branca dificilmente cicatrizam, mesmo com sutura.
Quanto ao padrão de rotura
Longitudinal — o mais favorável para reparação.
Em "asa de balde"(bucket-handle) — pode bloquear o joelho.
Radial — atravessa as fibras circunferenciais, comprometendo a função de amortecimento.
Horizontal — comum em contexto degenerativo.
Complexa ou degenerativa — múltiplos planos, associada a artrose.
Reparar ou remover? A decisão clínica
A decisão de reparar ou ressecionar não é simples. Depende de múltiplos fatores avaliados em conjunto: localização e padrão da rotura, qualidade do tecido, tempo de evolução, idade do doente e lesões associadas.
A reparação meniscal (sutura artroscópica) é preferida sempre que:
A lesão está na zona vascularizada (vermelha-vermelha ou vermelha-branca);
O padrão é longitudinal ou em asa de balde;
O tecido meniscal é de boa qualidade;
O doente é jovem e motivado para o protocolo de reabilitação pós-sutura.
A sutura meniscal é tecnicamente mais exigente do que a meniscectomia e implica uma reabilitação mais prolongada — tipicamente 3 a 4 meses até ao regresso ao desporto, versus 4 a 8 semanas após meniscectomia. Mas os benefícios a longo prazo justificam este investimento: um menisco reparado e cicatrizado protege a cartilagem e preserva a função articular.
A meniscectomia parcial mantém indicação quando:
A lesão está na zona avascular e não é reparável;
O padrão é complexo ou degenerativo;
A qualidade do tecido não permite sutura;
Existe artrose avançada subjacente.
Nestes casos, o objetivo é remover apenas o tecido claramente danificado, preservando o máximo de menisco saudável e funcional.
O debate sobre a meniscectomia em lesões degenerativas
Um marco na literatura ortopédica foi o estudo FINN publicado no New England Journal of Medicine em 2013 (Sihvonen et al.). Neste ensaio clínico randomizado, a meniscectomia artroscópica para lesões meniscais degenerativas em doentes com mais de 35 anos sem artrose significativa não mostrou superioridade face ao tratamento simulado (sham surgery) aos 12 meses de seguimento.
Em 2016, a European Society of Sports Traumatology, Knee Surgery and Arthroscopy (ESSKA) publicou um consenso europeu dedicado às lesões degenerativas do menisco — o ESSKA Meniscus Consensus Project —, que veio reforçar esta orientação: perante uma rotura meniscal degenerativa, o tratamento inicial deve ser conservador.
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Este e outros estudos subsequentes reforçaram a ideia de que, em contexto degenerativo, a fisioterapia e o tratamento conservador devem ser o tratamento de primeira linha — e que a cirurgia se reserva para casos selecionados com sintomas mecânicos claros e sem resposta ao tratamento conservador.
Quando suspeitar de uma lesão meniscal?
Os sintomas mais comuns incluem:
Dor localizada na linha articular interna ou externa;
Inchaço moderado após atividade;
Rigidez matinal;
Sensação de "estalido" ou bloqueio articular — especialmente em roturas em asa de balde;
Dificuldade em fazer agachamento completo.
A avaliação clínica inclui testes específicos (McMurray, Apley, Thessaly) e é complementada por ressonância magnética, que permite caracterizar a lesão com grande detalhe.
Em resumo
O menisco não é uma peça descartável. A sua remoção resolve os sintomas imediatos, mas frequentemente a um custo articular elevado a longo prazo. Sempre que a anatomia da lesão o permita, a reparação é a opção preferida — e os dados científicos suportam claramente esta posição.
Cada caso é diferente. Uma avaliação especializada permite determinar qual o melhor caminho para preservar a saúde do seu joelho a longo prazo.
Ref.: Fairbank TJ, J Bone Joint Surg Br 1948; Roos H et al., Arthritis Rheum 1998; Englund M et al., N Engl J Med 2008; Sihvonen R et al., N Engl J Med 2013; Nepple JJ et al., J Bone Joint Surg Am 2012; Monk AP et al., Bone Joint Res 2017.


