
PRP, infiltrações e viscosuplementação - quando usar cada um?
Três tratamentos injetáveis, três mecanismos diferentes — e indicações distintas
Existem várias opções de tratamento injetável para a dor no joelho — e é compreensível que haja confusão sobre o que cada uma faz, para quem serve e em que ordem devem ser consideradas.
Corticoides, ácido hialurónico, PRP. Não são equivalentes. Têm mecanismos diferentes, indicações diferentes e perfis de resposta diferentes. Este artigo esclarece as diferenças — para que a conversa com o seu médico seja mais informada.
Porque é que a articulação do joelho dói?
Antes de falar das infiltrações, é útil perceber o que se passa dentro do joelho doloroso.
Na artrose, a degeneração da cartilagem articular provoca exposição do osso subcondral e libertação de mediadores inflamatórios para o líquido sinovial. A membrana sinovial fica inflamada (sinovite), produz líquido em excesso (derrame articular) e liberta mais enzimas que aceleram a degradação da cartilagem. É um ciclo que se auto-alimenta.
As infiltrações intra-articulares atuam em diferentes pontos deste ciclo — daí as diferenças no mecanismo, na velocidade de resposta e na duração do efeito.
Infiltrações com corticosteroides
O que são?
Os corticosteroides (cortisona, metilprednisolona, triancinolona) são agentes anti-inflamatórios potentes que inibem a cascata inflamatória de forma ampla e eficaz.
Como funcionam?
Após injeção intra-articular, reduzem rapidamente a produção de mediadores inflamatórios, diminuem o derrame sinovial e proporcionam alívio significativo da dor. O efeito é rápido — frequentemente evidente em 24 a 72 horas.
Para quem é indicado?
Os corticoides são particularmente úteis em:
Fases agudas de agudização da artrose, com sinovite e derrame marcados;
Artrite inflamatória (artrite reumatoide, artrite psoriática);
Bursites e tendinites periarticulares.
Quanto dura o efeito?
Tipicamente entre 4 e 8 semanas — com variação significativa entre doentes. Algumas pessoas respondem de forma duradoura; outras têm alívio breve.
Limitações e precauções
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A evidência recente sugere que as infiltrações repetidas e frequentes de corticoides podem ser prejudiciais para a cartilagem articular — acelerando a degeneração que se pretendia controlar. Por este motivo, a frequência deve ser limitada: geralmente não mais de3 a 4 infiltrações por ano, por articulação.
São também contraindicados em presença de infeção articular suspeita, e devem ser usados com precaução em doentes diabéticos (podem elevar transitoriamente a glicemia).
Viscossuplementação — ácido hialurónico
O que é?
O ácido hialurónico (AH) é uma molécula naturalmente presente no líquido sinovial e na cartilagem articular. É responsável pelas suas propriedades viscoelásticas.
Na artrose, a concentração e o peso molecular do AH no líquido sinovial diminuem, comprometendo estas funções lubrificantes.
Como funciona?
A injeção de AH procura repor as propriedades reológicas do líquido sinovial. Além do efeito mecânico-lubrificante, o AH tem propriedades anti-inflamatórias e condro-protetoras demonstradas in vitro — embora a sua expressão clínica seja mais moderada do que os corticosteroides.
Para quem é indicado?
A viscossuplementação tem maior evidência em:
Artrose ligeira a moderada (KL 1–3), sem derrame articular marcado;
Doentes com contraindicação ou resposta insuficiente aos corticoides;
Como tratamento de manutenção após resposta inicial satisfatória.
Quanto dura o efeito?
O início do efeito é mais gradual do que os corticoides — pode demorar 2 a 4 semanas. A duração é potencialmente mais longa: 3 a 6 meses, com variação individual.
O debate sobre a evidência
A eficácia da viscossuplementação tem sido objeto de debate na literatura. Algumas meta-análises mostram benefício superior ao placebo; outras concluem que o efeito é modesto e clinicamente pouco relevante. Esta heterogeneidade deve-se em parte à diversidade de produtos (diferentes pesos moleculares, fontes e formulações) e à variabilidade das populações estudadas.
Na prática clínica, a resposta individual é muito variável: há doentes que respondem de forma excelente e prolongada; outros têm benefício mínimo. A identificação dos perfis de respondedor é uma área de investigação ativa.
PRP — Plasma Rico em Plaquetas
O que é?
O PRP é um concentrado de plaquetas obtido a partir do sangue do próprio doente. O processo é simples: recolhe-se uma amostra de sangue venoso, que é centrifugada para separar os seus componentes. O plasma com alta concentração de plaquetas — geralmente 5 a 8 vezes acima dos valores basais — é então injetado na articulação.
Como funciona?
As plaquetas são fragmentos celulares ricos em grânulos que contêm fatores de crescimento com funções biológicas diversas:
TGF-β(Transforming Growth Factor-beta) — estimula a produção de colagénio e proteoglicanos; efeito anti-inflamatório.
VEGF (Vascular Endothelial Growth Factor) — promove angiogénese e cicatrização.
PDGF (Platelet-Derived Growth Factor) — proliferação celular e reparação tecidual.
IGF-1 (Insulin-like Growth Factor) — efeito condro-protetor.
EGF (Epidermal Growth Factor) — proliferação e diferenciação celular.
Após a injeção, estes fatores de crescimento são libertados no ambiente articular, onde modulam a inflamação, inibem enzimas degradativas e promovem a síntese de componentes da matriz cartilaginosa.
Qual a evidência científica?
A investigação sobre PRP na artrose do joelho evoluiu significativamente na última década. Vários ensaios clínicos randomizados e meta-análises demonstram:
Superioridade do PRP face ao ácido hialurónico na redução da dor e melhoria da função a 6 e 12 meses em artrose ligeira a moderada;
Efeito superior ao placebo em múltiplos estudos;
Perfil de segurança excelente — sendo derivado do próprio doente, o risco de reação adversa é mínimo.
No entanto, a heterogeneidade das preparações (concentração de plaquetas, presença ou ausência de leucócitos, forma de ativação, número de injeções) dificulta a comparação entre estudos e a definição de protocolos otimizados.
Para quem é indicado?
O PRP tem maior evidência em:
Artrose ligeira a moderada (KL 1–3);
Doentes relativamente jovens e ativos;
Como alternativa ou complemento à viscossuplementação;
Em lesões musculotendinosas e ligamentares (contexto desportivo).
Em artrose muito avançada (KL 4, contacto osso-osso), os resultados são mais limitados.
Como escolher?
A decisão entre estas opções não é automática — depende do diagnóstico preciso, do grau de artrose, do quadro clínico atual e das características individuais do doente. De forma simplificada:
Situação | Opção preferencial |
|---|---|
Agudização com derrame e inflamação marcados | Corticoide |
Artrose ligeira a moderada, manutenção | Viscossuplementação ou PRP |
Doente jovem, ativo, artrose inicial | PRP |
Resposta insuficiente a outros tratamentos | Avaliar PRP ou combinação |
Contraindicação a corticoides | Viscossuplementação ou PRP |
As opções não são mutuamente exclusivas — em alguns casos, a sequência ou combinação de tratamentos pode ser mais eficaz do que qualquer um isolado.
O que não fazem estas infiltrações?
📌
É importante ser claro: nenhuma destas opções regenera cartilagem destruída nem reverte artrose avançada. O seu papel é modular a inflamação, aliviar a dor e, em alguns casos, abrandar a progressão —não reconstituir o que já se perdeu.
Quando a artrose é suficientemente avançada e limitante, a artroplastia continua a ser a opção com maior impacto demonstrado na qualidade de vida.
Em resumo
PRP, ácido hialurónico e corticoides são ferramentas terapêuticas complementares, com indicações distintas. Escolher a opção certa — ou a sequência certa — requer uma avaliação individualizada que considere o diagnóstico, o grau de doença e os objetivos de cada doente.
A conversa com o seu ortopedista deve incluir a discussão destas opções, os seus benefícios esperados e as suas limitações reais. Uma consulta permite avaliar qual a opção adequada para si.
Ref.: Bannuru RR et al., Osteoarthritis Cartilage 2019 (OARSI Guidelines); Meheux CJ et al., Arthroscopy 2016; Laudy AB et al., Br J Sports Med 2015; Cole BJ et al., Am J Sports Med 2017; Filardo G et al., Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc 2015; Abrams GD et al., Cartilage 2016; Trojian T et al., Clin J Sport Med 2021.


