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PRP, infiltrações e viscosuplementação - quando usar cada um?

August 18, 2026•6 min read

Três tratamentos injetáveis, três mecanismos diferentes — e indicações distintas

Existem várias opções de tratamento injetável para a dor no joelho — e é compreensível que haja confusão sobre o que cada uma faz, para quem serve e em que ordem devem ser consideradas.

Corticoides, ácido hialurónico, PRP. Não são equivalentes. Têm mecanismos diferentes, indicações diferentes e perfis de resposta diferentes. Este artigo esclarece as diferenças — para que a conversa com o seu médico seja mais informada.


Porque é que a articulação do joelho dói?

Antes de falar das infiltrações, é útil perceber o que se passa dentro do joelho doloroso.

Na artrose, a degeneração da cartilagem articular provoca exposição do osso subcondral e libertação de mediadores inflamatórios para o líquido sinovial. A membrana sinovial fica inflamada (sinovite), produz líquido em excesso (derrame articular) e liberta mais enzimas que aceleram a degradação da cartilagem. É um ciclo que se auto-alimenta.

As infiltrações intra-articulares atuam em diferentes pontos deste ciclo — daí as diferenças no mecanismo, na velocidade de resposta e na duração do efeito.


Infiltrações com corticosteroides

O que são?

Os corticosteroides (cortisona, metilprednisolona, triancinolona) são agentes anti-inflamatórios potentes que inibem a cascata inflamatória de forma ampla e eficaz.

Como funcionam?

Após injeção intra-articular, reduzem rapidamente a produção de mediadores inflamatórios, diminuem o derrame sinovial e proporcionam alívio significativo da dor. O efeito é rápido — frequentemente evidente em 24 a 72 horas.

Para quem é indicado?

Os corticoides são particularmente úteis em:

  • Fases agudas de agudização da artrose, com sinovite e derrame marcados;

  • Artrite inflamatória (artrite reumatoide, artrite psoriática);

  • Bursites e tendinites periarticulares.

Quanto dura o efeito?

Tipicamente entre 4 e 8 semanas — com variação significativa entre doentes. Algumas pessoas respondem de forma duradoura; outras têm alívio breve.

Limitações e precauções

⚠️

A evidência recente sugere que as infiltrações repetidas e frequentes de corticoides podem ser prejudiciais para a cartilagem articular — acelerando a degeneração que se pretendia controlar. Por este motivo, a frequência deve ser limitada: geralmente não mais de3 a 4 infiltrações por ano, por articulação.

São também contraindicados em presença de infeção articular suspeita, e devem ser usados com precaução em doentes diabéticos (podem elevar transitoriamente a glicemia).


Viscossuplementação — ácido hialurónico

O que é?

O ácido hialurónico (AH) é uma molécula naturalmente presente no líquido sinovial e na cartilagem articular. É responsável pelas suas propriedades viscoelásticas.

Na artrose, a concentração e o peso molecular do AH no líquido sinovial diminuem, comprometendo estas funções lubrificantes.

Como funciona?

A injeção de AH procura repor as propriedades reológicas do líquido sinovial. Além do efeito mecânico-lubrificante, o AH tem propriedades anti-inflamatórias e condro-protetoras demonstradas in vitro — embora a sua expressão clínica seja mais moderada do que os corticosteroides.

Para quem é indicado?

A viscossuplementação tem maior evidência em:

  • Artrose ligeira a moderada (KL 1–3), sem derrame articular marcado;

  • Doentes com contraindicação ou resposta insuficiente aos corticoides;

  • Como tratamento de manutenção após resposta inicial satisfatória.

Quanto dura o efeito?

O início do efeito é mais gradual do que os corticoides — pode demorar 2 a 4 semanas. A duração é potencialmente mais longa: 3 a 6 meses, com variação individual.

O debate sobre a evidência

A eficácia da viscossuplementação tem sido objeto de debate na literatura. Algumas meta-análises mostram benefício superior ao placebo; outras concluem que o efeito é modesto e clinicamente pouco relevante. Esta heterogeneidade deve-se em parte à diversidade de produtos (diferentes pesos moleculares, fontes e formulações) e à variabilidade das populações estudadas.

Na prática clínica, a resposta individual é muito variável: há doentes que respondem de forma excelente e prolongada; outros têm benefício mínimo. A identificação dos perfis de respondedor é uma área de investigação ativa.


PRP — Plasma Rico em Plaquetas

O que é?

O PRP é um concentrado de plaquetas obtido a partir do sangue do próprio doente. O processo é simples: recolhe-se uma amostra de sangue venoso, que é centrifugada para separar os seus componentes. O plasma com alta concentração de plaquetas — geralmente 5 a 8 vezes acima dos valores basais — é então injetado na articulação.

Como funciona?

As plaquetas são fragmentos celulares ricos em grânulos que contêm fatores de crescimento com funções biológicas diversas:

  • TGF-β(Transforming Growth Factor-beta) — estimula a produção de colagénio e proteoglicanos; efeito anti-inflamatório.

  • VEGF (Vascular Endothelial Growth Factor) — promove angiogénese e cicatrização.

  • PDGF (Platelet-Derived Growth Factor) — proliferação celular e reparação tecidual.

  • IGF-1 (Insulin-like Growth Factor) — efeito condro-protetor.

  • EGF (Epidermal Growth Factor) — proliferação e diferenciação celular.

Após a injeção, estes fatores de crescimento são libertados no ambiente articular, onde modulam a inflamação, inibem enzimas degradativas e promovem a síntese de componentes da matriz cartilaginosa.

Qual a evidência científica?

A investigação sobre PRP na artrose do joelho evoluiu significativamente na última década. Vários ensaios clínicos randomizados e meta-análises demonstram:

  • Superioridade do PRP face ao ácido hialurónico na redução da dor e melhoria da função a 6 e 12 meses em artrose ligeira a moderada;

  • Efeito superior ao placebo em múltiplos estudos;

  • Perfil de segurança excelente — sendo derivado do próprio doente, o risco de reação adversa é mínimo.

No entanto, a heterogeneidade das preparações (concentração de plaquetas, presença ou ausência de leucócitos, forma de ativação, número de injeções) dificulta a comparação entre estudos e a definição de protocolos otimizados.

Para quem é indicado?

O PRP tem maior evidência em:

  • Artrose ligeira a moderada (KL 1–3);

  • Doentes relativamente jovens e ativos;

  • Como alternativa ou complemento à viscossuplementação;

  • Em lesões musculotendinosas e ligamentares (contexto desportivo).

Em artrose muito avançada (KL 4, contacto osso-osso), os resultados são mais limitados.


Como escolher?

A decisão entre estas opções não é automática — depende do diagnóstico preciso, do grau de artrose, do quadro clínico atual e das características individuais do doente. De forma simplificada:

Situação

Opção preferencial

Agudização com derrame e inflamação marcados

Corticoide

Artrose ligeira a moderada, manutenção

Viscossuplementação ou PRP

Doente jovem, ativo, artrose inicial

PRP

Resposta insuficiente a outros tratamentos

Avaliar PRP ou combinação

Contraindicação a corticoides

Viscossuplementação ou PRP

As opções não são mutuamente exclusivas — em alguns casos, a sequência ou combinação de tratamentos pode ser mais eficaz do que qualquer um isolado.


O que não fazem estas infiltrações?

📌

É importante ser claro: nenhuma destas opções regenera cartilagem destruída nem reverte artrose avançada. O seu papel é modular a inflamação, aliviar a dor e, em alguns casos, abrandar a progressão —não reconstituir o que já se perdeu.

Quando a artrose é suficientemente avançada e limitante, a artroplastia continua a ser a opção com maior impacto demonstrado na qualidade de vida.


Em resumo

PRP, ácido hialurónico e corticoides são ferramentas terapêuticas complementares, com indicações distintas. Escolher a opção certa — ou a sequência certa — requer uma avaliação individualizada que considere o diagnóstico, o grau de doença e os objetivos de cada doente.

A conversa com o seu ortopedista deve incluir a discussão destas opções, os seus benefícios esperados e as suas limitações reais. Uma consulta permite avaliar qual a opção adequada para si.


Ref.: Bannuru RR et al., Osteoarthritis Cartilage 2019 (OARSI Guidelines); Meheux CJ et al., Arthroscopy 2016; Laudy AB et al., Br J Sports Med 2015; Cole BJ et al., Am J Sports Med 2017; Filardo G et al., Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc 2015; Abrams GD et al., Cartilage 2016; Trojian T et al., Clin J Sport Med 2021.

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Dra. Filipa Gonçalves Pereira

Ortopedista dedicada à cirurgia do joelho e traumatologia desportiva, com foco na preservação articular. Tem dor no joelho ou uma lesão desportiva. Não adie uma avaliação.

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